Muito se fala do bloco nos dias de hoje. A dúvida instaurada nos meios de comunicação, sobre o que é o Bloco, quem é que milita no Bloco, que sociedade defende o Bloco, etc parece estar a transbordar para toda a sociedade portuguesa.
Não é mentira que aquando da sua nascença, fez já 10 anos, o Bloco sofreu de um estado de graça por parte dos meios de comunicação social que permitiu que capaltusse para a agenda política nacional e para as notícias. Não menos verdade é dizer que hoje em dia o Bloco é o partido mais atacado pelos comentadores políticos e cronistas.
Isto tem uma justificação simples, aquilo que ao início parecia ser um partido irreverente, com piada, que dizia umas coisas que agitavam muitas águas, de repente transformou-se na terceira força política do país (a confirmar-se ainda nestas legislativas) que defende um programa de Esquerda sério, com propostas ausadas e ao mesmo tempo explicadas, com uma força que fez abalar muitos alicerces.
Como já disse no post anterior, a força dos inimigos não se mede pela força que demonstram, mas pelo incómodo que causam. Nisso o Bloco tem-se mostrado um adversário temível para os poderes instituídos, que se fazem representar pelos partidos do poder, mas que também repousam nas opiniões de comentadores e cronistas.
Mas convém, sem palavras de ordem e chavões de campanha, esclarecer ou tentar explicar: afinal, o que é o Bloco? Que sentido faz o Bloco no século XXI? Que defende o Bloco para o país?
Sou militante há já 4 anos do Bloco. Nestes 4 anos militei a vários níveis e em várias frentes, conheci muita gente e vi o Bloco crescer, não só em números mas nas opiniões das pessoas, pelo que vou usar esta minha experiência ao mesmo tempo que uso as minhas convicções pessoais para explorar estas questões.
O Bloco de Esquerda é Esquerda
Com E grande.
Vem de uma grande tradição ideológica e militante de Esquerda. Na sua fundação viu 3 partidos políticos de áreas diferentes da Esquerda e com histórias diferentes juntarem-se: PSR, Trotskista; UDP, Leninista; Política XXI, Marxista Social-Democrata.
Daqui concluímos que o Bloco, na sua nascença, criou-se como uma força de Esquerda de forte tradição Marxista. Disto ninguém nega, o Bloco é uma força anti-capitalista que mostra o seu cepticismo e descrença na religião do mercado livre. É uma força Socialista, quer então construir uma sociedade com uma Economia Social, para as pessoas e não para a fantasmagórica figura do Capital. É uma força democrática, porque acredita no contributo diversificado das várias experiências de Luta Socialista.
Nisto não pode haver dúvidas. Aquilo que muitos tentam criticar, acusando o Bloco de falta de definição e de radicalismo é meramente uma falta de atenção: o Bloco é uma força bem definida, na sua democracia interna e abertura às várias lutas, contra o capitalismo. Chamam radicais aos bloquistas como quem fica surpreendido com algumas frases: mas somos coerentes nas nossas posições de construção do Socialismo! Não nos peçam para efeitar o nosso discurso: se acreditamos e lutamos por um mundo diferente então dizemo-lo, não fingimos que não somos de Esquerda, não fingimos que não somos pela Economia Social, não fingimos que não somos contra a “opressão do homem pelo homem”, não! Dizemo-lo com todas as palavras e todas as referências.
Nunca escondemos a forte influência marxista nas nossas ideias, nunca escondemos o nosso interesse em aprender com todas as experiências de socialismo e de luta, trazendo-as para debate fazendo-nos mais eficazes e preparados.
O Bloco é uma força bem definida, não por palavras que tentam rotular num termo muita coisa, não num manifesto que serve de guião espiritual (prezando e valorizando no entanto o valioso contributo para a Luta Socialista do Manifesto do Partido Comunista de Marx), não numa só obra política, mas sim na acção, na luta, na sua coerência, na sua democracia. Se quiserem definir o Bloco usem essa mesma palavra, Bloco. O Bloco é o Bloco, porque não houve em Portugal, e muito raramente no mundo, uma força Socialista, Anti-Capitalista, Progressista, Democrática, etc como esta.
O Bloco é novo, não porque tem 10 anos, mas porque é um novo paradigma da Luta Socialista.
Então e o PCP?
O Bloco de Esquerda e o PCP sempre tiveram caminhos diferentes. Caminhos diferentes levam a posições diferentes, a modos de estar diferentes, a abordagens diferentes. Estas divergências definem muito o que nos separa.
O PCP é um partido da linha Marxista-Leninista, dos que foram criados à semelhança do partido comunista soviético, que defenderam sempre o socialismo soviético, que ficaram abalados com a queda do muro e têm dificuldades em voltar-se a encontrar na luta internacional sem o farol vermelho do Kremlim.
O Bloco tem como legado histórico uma luta diferente, a luta de quem não via na união soviética o socialismo bem medido e construído, mas também não encontrava na união soviética a possibildiade de mudança e de abertura, que não conseguiu encontrar na união soviética a capacidade popular de construir o socialismo com o povo.
Isto marca as diferenças pela questão da Democracia. O Bloco defende uma democracia participativa, aberta, segmentada: o poder local para os locais, regional para os regionais, nacional para a nação, internacional para o mundo inteiro. Defende uma democracia descentralizada, com uma forte participação popular. O PCP defende a luta centralizada, a tomada de decisões centralizada, distante do povo e das causas.
Respeitamos o contributo e a luta do PCP em toda a sua história, mas continuamos a achar que lhe falta esta importante característica que a nosso ver é crucial na luta.
Que sentido faz o Bloco, ou qualquer força Marxista, no séc. XXI?
Ao contrário do que muita direita diz, o Manifesto do Partido Comunista publicado em 1848 não carece de actualidade pelo facto de ter 150 anos.
O argumento da direita é redutor, argumenta que a mensagem morre no séc. XIX pelo contexto da industria farbil intensa Germânica e Inglesa desse mesmo século. Isto é um argumento fácil de usar e fácil de entrar no ouvido se batermos fortemente na tecla do “tem mais de um século de idade”. Contudo peca por não ter o mínimo de razão.
Mas antes de partir para a defesa ideologica, gostaria de usar o mesmo raciocínio para atacar a direita: o Manifesto foi publicado em 1848; ora bem, a direita faz prevalecer a sua ideia de mercado livre na crença da Mão Invísivel de Adam Smith que tudo controla e distribui, interessante ver que Adam Smith só viveu no séc. XVIII; depois, na linha da ideologia liberal vem David Ricardo, que evoluiu a Economia como uma ferramenta de estudar os meios de produção e mandou as suas opiniões construtivas em torno do modelo de Adam Smith, pois bem David Ricardo viveu na mudança do séc. XVIII para o séc. XIX e morreu quando Karl Marx tinha 5 anos.
Em pleno séc. XXI, em qualquer curso de economia, é ensinado Adam Smith, David Ricardo, e as suas mãos invisíveis são defendidas como uma entidade quase divina que restitui dignidade ao mercado. No entanto, dizem que o Marxismo é antiguado! Há que ter lata.
O Marxismo pode ser visto em duas partes, a crítica ao capitalismo e a ideia da construção do socialismo.
A primeira é uma análise profunda do que é o sistema capitalista e como funciona. Dissecando por partes a estrutura do mesmo, as motivações do capital e do capitalista, a maneira como opera junto dos trabalhadores, a maneira como lida com o poder instituido na política e não só. Isto é intemporal, é ainda hoje actual e não carece de nenhuma falha na sua interpretação.
Há quem diga, que se acham que o marxismo é crítico com o capitalismo, então seria ainda mais se Marx nascesse hoje para ver até onde chegou.
Na segunda centra-se a problematica de “em como mudar o mundo”, aqui podemos ver ideias que só fazem sentido num contexto de séc. XIX, mas não nos podemos esquecer que o mundo que Marx queria mudar não é o de hoje, com a internet, com a democracia liberal, com a comunicação pela internet, etc.
Ou seja, os meios e os contextos mudam, mas a estrutura e modo de operar do capitalismo mantém-se, e isso é intemporal, daí que o Marxismo e a Luta Socialista não só fazem sentido no séc. XXI como ganham argumentos a cada dia que passa.
O capital tem horror à ausência de lucro. Quando fareja um benefício, o capital torna-se ousado.
A 20% fica entusiasmado.
A 50% é temerário.
A 100% enloquece à luz de todas as leis humanas.
A 300% não recua diante de nenhum crime.
Karl Marx, O Capital
Os militantes do Bloco, com o seu marxismo na sua luta, evoluiram com o mundo, aprenderam a ver as mudanças do capital, as novas lutas, as novas frentes de combate. O Bloco é hoje em dia um exemplo muito interessante em como o marxismo evoluiu na sua luta e capacidade de resposta.
E que projecto de sociedade?
Para acabar, que já vai longo e os leitores deste blog têm a tendência de comentar coisas do género “leio mais tarde que é grande” ou “epah, grande testamento”, afinal o que defende o Bloco para a sociedade?
Creio que esta resposta foi sendo divulgada nos pontos anteriores, mas vamos deixar explícito: o Bloco luta por uma sociedade Socialista. Com isto entedemos:
- Uma economia Social ao serviço do interesse Público.
- Controlo Público de sectores fulcrais da economia que não fazem sentido estarem na mão dos privados: monopólios de energia por exemplo.
- Promoção de um estado social de facto universal e gratuito.
- Abolição das leis de matriz religiosa, considerando a religião uma escolha pessoa e individual e não universal.
- Combate aos crimes económicos
- Combate à evasão fiscal com a lógica de quem rouba ao estado rouba a todos.
- Descentralização do poder, acreditando na regionalização.
- Estado com leis curtas e concretas, de fácil aplicação e imediata activação dos mecanismos legais.
- Estado tendencialmente ausente no que toca a liberdades sociais.
Queremos portanto, um estado que defende o que é de todos, mas que dê liberdade para o individual. Nisto convém deixar claro que consideramos a economia e as questões económicas uma questão de todos e não individual. No entanto não devemos ficar com a ideia que se pretende nacionalizar tudo e que toda a gente deve ser funcionária pública! O estado não tem competências para estar nos mercados de bens de consumo, deve sim proteger o emprego e os consumidores. Acreditamos muito numa frase marxista que diz que o comunismo (esta palavra que nem tinha ainda usado! mas sim, há militantes do Bloco que se considerem comunistas como é o meu caso) não priva o trabalhador dos frutos do seu trabalho, mas priva-o de ser explorado por outros por causa desses frutos.
Acreditamos também numa ideia de futuro que ainda não foi verdadeiramente explorada por nenhum poder socialista: a de defender as empresas auto-geridas pelos trabalhadores (os trabalhadores totalizam os accionistas da empresa, sendo todo o seu lavor recompensado), é um fenómeno que existe em empresas que quase que fecham quando o capitalista foge com os lucros mas deixa a empresa para trás, seria muito interessante tentar viabilizar legalmente este tipo de iniciativas populares.
Agora, se querem propostas concretas aconselho a leitura do programa e a visita ao site do Bloco, uma vez que ao contrário do que a comunicação social transmite nós temos de facto muitas ideias e propostas concretas, com números e figuras e tudo!










