Cavaco ganhou. O povo, soberano, decidiu e em relação a isso não me revolto, sou um socialista profundamente democrático, não estou revoltado com o povo por mais que não goste do Cavaco.
A necessidade,
A esquerda tinha como objectivo mostrar-se preparada para enfrentar os tempos difíceis. A defesa de uma nova postura no presidente da república era crucial, num país onde nem o estado respeita a lei, os poderosos não pagam impostos, os pobres são facilmente engolidos pelo crédito fácil, a administração pública está em falência, os níveis de confiança são continuamente violados pelo estado, os verdadeiros estupradores continuam a estuprar o trabalhador… Era preciso um presidente que falasse alto a realidade, que obrigasse o estado a cumprir as suas obrigações perante o povo, que fosse um representante dos portugueses e não de quem continua a fazer este país no que é.
O que escolhemos,
Da bruma surgiu Cavaco, sem campanha neste acto eleitoral, mas já com uma campanha cuidadosamente planeada e feita ao longo dos últimos anos. Escreveu dois livros, a sua autobiografia, que facilmente ilude e faz esquecer o primeiro-ministro que foi. Com slogans óbvios e clichés de crise como “Portugal Maior!”, que mais parece que promete anexar Olivensa de novo ao território português.
Com uma campanha patrocinada pelos maiores grupos de bancos portugueses – e não, eu não acredito em coincidências neste caso – onde claramente mostrou uma imagem que os portugueses queriam, mesmo sendo falsa: opiniões e sugestões de esquerda, quando sabemos que é um autêntico economista neo-liberal; defendendo a calma e a averiguação do estado das coisas, quando na realidade já foram feitos todos os relatórios sobre a realidade portuguesa; almoçando com sindicatos e trabalhadores, enquanto jantava com os seus exploradores.
Muitos dizem que Cavaco, “tendo sido o bom primeiro ministro que todos nos lembramos”, daria um excelente presidente: intransigente, competente e pelos portugueses. Eu não vivi os tempos de Cavaco, mas não me deixo enganar:
Intransigência:
- Uma manifestação de polícias pelo direito a sindicato – resposta: carga policial. O homem que recusou durante todo o seu “reinado” instaurar o rendimento mínimo, argumentando um possível desequilíbrio orçamental público (hoje sabemos que esse impacto orçamental é praticamente nulo, tendo sido uma das medidas com maior impacto social). Na fase final do seu mandato houve perímetros de segurança a proteger o parlamento devido à contestação pública.
Competência:
- O homem que mais “boys” contratou. O primeiro ministro que no seu mandato mais a função pública cresceu em número de funcionários (o verdadeiro pai do défice).
Pelos portugueses:
- Uma manifestação contra o aumento das portagens na ponte 25 de Abril – resposta: carga policial, um jovem estudante ficou paralítico para o resto da vida após o recurso a munições reais por parte da polícia. Sim, desta vez os manifestantes eram civis…
Depois, quem ainda tentava defender Cavaco dizia “mas ele é uma pessoa…”, eu interrompia e dizia:
Alguém que durante o seu mandato, num debate sobre o défice orçamental afirmou que o “melhor mesmo”, para reduzi-lo, “ era que os pensionistas e reformados morressem.”, não é uma pessoa no mesmo sentido que eu considero…
Cavaco ganhou pelo silêncio, pois segundo um analista político durante a campanha “se ele falar perde votos”, ao qual eu acrescento: porque as pessoas vão-se lembrar.
Cavaco ganhou, sem ter sequer falado sobre nenhuma ideia, nenhuma posição, nenhuma opinião, simplesmente mostrando-se sereno e a evitar debates na última semana de campanha. A razão para tal todos nós sabemos qual foi, tendo em conta a descida nas sondagens, um derradeiro choque de ideias iria levá-lo à segunda volta onde a esquerda ganharia.
A esquerda,
É óbvio que o perigo Cavaco era real, contudo a esquerda sub-estimou a pré-pré-campanha dele, pensando que o povo não havia esquecido. Muito estávamos enganados. Estupefactos com o madrugador apoio a Cavaco, a esquerda teve de fazer uma campanha triste: a da anti-campanha, era preciso relembrar o povo do que o Cavaco era.
Mesmo assim nada desculpa a falta de ideias apresentadas pelos dois candidatos do PS, que simplesmente levaram a votos uma birra partidária. De um lado tínhamos um mártir da pátria, renegado pelo partido mas apoiado pelos simpatizantes do mesmo; do outro lado tínhamos uma triste histórica figura, que não conseguiu nada para além de dizer mal de todos e de começar todas as frases com “As pessoas sabem que eu(…)”.
Por outro lado, Jerónimo de Sousa levou uma campanha claramente à PCP, vocacionada para o voto orgânico, ou seja, ao habitual eleitorado do PCP. Com muito espectáculo para o exterior mas com um discurso interno, de roda o disco e toca o mesmo, onde as massas de eleitorado não estavam para ouvir.
Garcia Pereira fez uma campanha de demagogias, na mesma semana mudava de opinião, sobre um relativo assunto, umas três ou quatro vezes…dependia da terra onde estava. A meu ver só esteve bem no final das eleições quando disse “A democracia portuguesa bateu hoje no fundo, onde um candidato sem ideias nem discurso ganha.”
Por fim o Louçã, eu fiz campanha pelo homem e estou contente por tê-lo feito. Quem ouviu o que ele tinha para dizer e o manifesto, sabe que havia ali uma candidatura que defendia uma postura nova para a presidência. Contudo a imagem que passou cá para fora foi só o que deu na televisão: a parte dos discursos onde se falava de Cavaco; esta manipulação de ideias foi tão descarada que havia dias que o Louçã não aparecia a falar, não porque não falou mas simplesmente porque não falou no Cavaco…
Estou triste que tenha sido uma campanha onde o povo português se mostrou algo básico: ganhou o candidato das ilusões e do consenso falso, a televisão moldou a opinião das massas, a falta de esperança levou a escolher um candidato cujo paradigma eleitoral foi parecer um autoritário.
Fico ainda mais triste quando tomo conhecimento do apoio dos jovens no Cavaco, eu que tento ser uma pessoa altruísta através – entre outras coisas – da empatia, não consigo conceber o que defende e no que acredita um jovem que apoie Cavaco numa altura destas. Eu bem lhes perguntava, só me diziam “porque sim” ou “porque não é esquerda”, isso é o que me magoa.
PS: Agora deixo aqui um aviso a Cavaco: o povo escolheu, é soberano, contudo se voltares sequer a sonhar em fazer o que já fizeste, nós estaremos cá para evitar que o povo se venha arrepender. Estamos cá para a luta, caso decidas estuprar o voto de confiança e o juízo que o povo fez.